terça-feira, 12 de julho de 2011

Palavras, palavras, Palavras...

Encontrei esse texto vagando pelo meu tédio na internet.
E não sei se fez sentido só para mim...


Palavras, palavras, palavras


Criadas pelos humanos, as palavras são suscetíveis ao tempo,
como os humanos. Algumas mudam de significado, outras vão desbotando
aos poucos, e há as que morrem na inanição do silêncio.

 
Ninguém mais chama o libertino de bilontra, a amante de traviata ou
o inocente de cândido. Depois de soar na boca do povo e iluminar
a escrita, bilontra, traviata e cândido foram sepultadas nos dicionários
junto às que lá descansavam em paz. Em seus lugares brotam novas,
frescas e saltitantes, com significado igual – ou quase. A língua é a
mais genuína criação coletiva, feita da contribuição anônima. O agito
das palavras traduz as mudanças do mundo – na ciência e tecnologia,
na economia e política, nas leis e religiões, no comércio e publicidade,
no esporte e comunicação, nos costumes e valores.
 
A palavra escalpo anda sumida porque não se arranca mais o
couro cabeludo do inimigo. Não se mata na cruz nem se guerreia em
buraco – crucificar e trincheira são metáforas. O Hino Nacional –
impávido colosso, lábaro estrelado, clava forte – é um jazigo verbal.
Sem o chapéu, descobrir-se é saber de si. Formidável: quem ainda
diz? Semideus e semidivino agonizam por falta de fé. O reitor é
magnífico?
 
Reveladoras são as palavras que, condenadas, estão na fase de
desaparecimento. Perderam primazia e brilho, mas ainda são usadas.
Escapam empoeiradas da boca da professora, embaçadas no verso
do poeta, combalidas na memória do idoso, mortas no discurso do
político. Observá-las em plena agonia é ouvir a sociedade.

 
Faz tempo não ouço a palavra cavalheirismo. Parece que a igualdade
de direitos das mulheres botou fora o bebê, a água do banho e
a bacia. Lá se foram também delicadeza e cordialidade: louvadas no
passado, antes de sumir viraram sinônimo de perda de tempo. Pessoa
cordial passou a ser chata, cheia de frescura, pé-no-saco, puxa-saco.
Cortesia não morreu, mas mudou: agora quer dizer brinde, boca-livre,
promoção! Crimes têm cúmplices, mas é rara a cumplicidade entre
casais.

 
Leio jornais, revistas, livros, peças e roteiros contemporâneos de
lápis na mão. Há anos não grifo a palavra honra. Nem os crimes
passionais se explicam mais como defesa da honra. Quando encontro
as palavras perdão e respeito, referem-se a autoridades. Já dever e
sacrifício referem-se a voto e reajustes salariais. Encontro mais a
desonesto do que a honesto. Não leio ou ouço, em lugar algum, a
palavra compaixão: essa foi para o céu! Ética e educação, leio e ouço
bastante. Mas surraram os sentidos até esvaziá-los, ficaram ocas, só
sons e letras. Os novos sentidos são da conveniência e interesse
pessoal de quem escreve ou fala. Os significados que lhes deram
Aristóteles e Rousseau dormem na paz do dicionário.
 
Se as palavras morrem ou mudam de sentido, os gestos, intenções
e atitudes que designam também morrem ou mudam de sentido.

 
Cabe indagar: que sociedade é essa que sepulta o cavalheirismo, a
delicadeza, a cordialidade e a compaixão? Que gente é essa que
enterra a honra? Que país é esse que esvazia valores como educação
e ética e faz da cortesia um gesto interesseiro? Que confere respeito
e perdão aos poderosos e impõe aos destituídos o dever e o sacrifício?

 
Criadas pelos homens, palavras são do humano. Intriga sejam
justamente as que dizem o mais humano do humano a perderem o
sentido ou morrerem. Ou será que estamos perdendo o prazer da
convivência? Ah, palavras, palavras, palavras...

 
ARAÚJO, Alcione. Palavras, palavras, palavras. Estado de Minas, Belo Horizonte, 05 jul. 2010.
Caderno Cultura, p. 8.


Não é só eu que penso o quanto tudo realmente mudou...

 
 
Na sintonia de: Cat Power- Maybe Not.

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